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Conto

Felicidade

Bruno Palermo

Quando criança, em Andifilus, havia um lugar que me facinava. Uma pequena cabana, localizada nas montanhas que contornavam a periferia da vila. A cabana nada tinha de especial, as montanhas menos ainda. Ao contrário: ambas encontravam-se em tal estado de decadência que podia-se sentir as energias negativas emanando de lá. No entanto, em minha juvenude eu era dado a períodos de depressão, durante os quais aquela atmosfera tenebrosa das montanhas, com suas árvores secas e retorcidas curvando-se como garras sobre mim me agradava e, convidativa, quase que me punha confortável.

Numa dessas crises, contemplando o casebre, vi uma velha senhora sentada na pequena varanda roída por cupins. Ela, embora de certo modo bonita, trazia o mais triste olhar que já pude ver e contemplava a mesma paisagem que eu costumava observar em meus devaneios. Aquilo me encheu de curiosidade, pois até ali, nenhum interesse eu tinha pela decadente construção, supostamente abandonada, que, para mim, era apenas mais um elemento em minha paisagem decrépita. Fiquei lá a contemplar a estranha senhora até que, junto com o sol, ela se recolheu. A casa, mesmo à noite, permaneceu tão escura quanto durante o dia. Nem lampião, nem vela ou lareira, nada, nem o mais tênue raio de luz saía da casa.

No dia seguinte acordei cedo e, enquanto ajudava meu pai na feira fui me informando com os moradores mais antigos sobre a “bruxa estrangeira”, como a chamavam. Alguns diziam que ela era uma curandeira refugiada dos estranhos reinos do norte, outros que era filha bastarda de um nobre da região, mas todos a achavam estranha. Ela nunca descia as montanhas, nunca saía de casa, e nunca se viu luz alguma lá. Aquilo atiçou mais ainda minha curiosidade. Como podia uma mulher que, segundo os moradores da vila, já vivia ali há mais de 50 anos nunca ter sido vista na cidade ou nunca ter acendido uma lareira para atenuar o frio penetrante do inverno nas montanhas? Naquela noite não consegui dormir tranqüilo, minha imaginação visitava as montanhas e sua estranha moradora. As estórias dos aldeões misturavam-se às minhas próprias especulações e imagens formavam-se em minha mente. Depois de muito caí num sono pesado livre de sonhos.

Os trabalhos da quinzena seguinte impediram-me de visitar meu santuário, mas na minha imaginação, a fisionomia daquela senhora em sua puída varanda era vívida, quase como uma visão real que me acompanhava hora a hora, na lavoura ou na feira, e me atraía de volta, como a isca teimosa que se insinua na boca de um peixe faminto. E faminta estava minha curiosiade! Porém o duro trabalho da colheita me fazia necessário e não me deixava tempo para divagações, assim, aos poucos fui meio que esquecendo aquela visão, que, cada vez mais, parecia fruto de minha imaginação.

Após a colheita e os preparatórios para a Grande Feira Anual, que aconteceria em Andifilus na semana que se seguia, voltei às montanhas. Tudo estava como de costume, mas aquele cenário não mais tinha aquela mórbida atração sobre mim sem a presença de sua incomum habitante. A tarde passou lentamente, mas a casa continuou impassível, como se fosse mais uma rocha das encostas. A varanda, tão deserta como nas minhas primeiras visitas, despertou-me para uma angústia nunca antes sentida. Aproximei-me do casebre. A maldita casa se mantinha estática e comecei a praguejar, num cochicho inicialmente, mas logo eu estava gritando, clamando por uma resposta, exigindo que minha curiosidade fosse sanada. Mas a única resposta que recebi foram meus próprios gritos ecoando nos vales e paredões da fria cordilheira.

Em alguns instantes uma tristeza quase sobrenatural tomou conta de mim e quando dei por mim estava em prantos de joelhos na grama seca da escarpa. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e pescoço e eu nem ao menos entendia o motivo de todo aquele sentimento de perda. O sol se punha e pintava com tons ainda mais sombrios aquelas já opressivas formações rochosas. Sombras me cercavam e me faziam mais infeliz, seu toque frio alimentando mais e mais minha infelicidade crescente. Ao longe o piu agourento de uma coruja tirou-me do transe em que estava. Já era noite, eu estava ensopado em suor, e ainda tinha um longo caminho pela frente até a vila.

Voltei para casa vagando entre a vegetação baixa e cinzenta daquela região enquanto tentava entender o que causara tal reação em mim. Que emanações maléficas poderiam me por em tal estado de fraqueza emocional. Não encontrei essas respostas naquela noite. Parei para descansar enquanto voltava e adormeci na relva macia da base das montanhas, já próximo aos celeiros de estocagem, na periferia de Andifilus. Acordei no dia seguinte com o barulho do já adiantado trabalho de estocagem dos víveres, que seriam comercializados durante a Feira Anual, em dois dias. Minha roupa empapada de orvalho e suor exalava um cheiro de madeira molhada que me fazia piscar e folhas se enroscavam no meu cabelo.

Cheguei em casa afinal. Meu pai havia saído, provavelmente preparando-se para a feira, como os outros. Tirei minhas roupas, enchi a tina de banho com água fria e tomei um longo banho enquanto planos de visitar a casa das montanhas relampejavam em minha mente. Como eu seria recebido? Seria mesmo uma bruxa aquela estranha senhora? Que passado negro poderia levar alguém a um isolamento tão cruel voluntariamente?

Estes devaneios me perseguiram durante os dois dias seguintes, mas, uma vez mais, minhas obrigações impediram-me de seguir adiante: a Grande Feira Anual de Andifilus chegara, e com ela, uma semana de trabalho intenso. Regatear feixes de trigo, comprar novas ferramentas, todo esse trabalho duro me mantinha ocupado naqueles dias de feira, mas eu estaria mentindo se dissesse que não me divertia. Na feira, trabalho virava diversão, encontravam-se amigos que viviam distantes e cada moeda era disputada num jogo divertido de negociações. Conhecimentos passados de pai para filho eram postos em prática e cada centavo, ganho ou poupado, era comemorado com um sorriso e um meneio de cabeça.

Havia muita música e cor, comia-se maçãs-de-mel, ouvia-se os velhos contadores de estórias e, às vezes, até saltimbancos apareciam com suas piruetas e truques. Este ano, a sensação seriam os fogos de artifício. Ninguém em Andifilus, exceto um ou outro mercador mais viajado havia visto os tais fogos, mas o que corria à boca do povo é que era como se o céu se desfizesse. Tudo isso foi, mais uma vez, afastando da minha mente as lembranças da “senhora do casebre”, como eu a apelidara.

No entanto, as coisas vêm quando as coisas têm de vir, como dizia meu pai. No terceiro dia da feira, no meu tempo de almoço, fui mostrar para Joeh, um amigo de infância que na época vivia além das florestas de Goona, o casebre do qual havia falado. Subimos as montanhas rapidamente, mas fomos surpreendidos por um belíssimo cavalo estrangeiro, parado em frente à casa. Talvez um mercador perdido à caminho da feira, ou um mero viajante, mas algo me dizia que minha curiosidade teria fim naquela tarde.

Tomei coragem e, mais uma vez, aproximei-me da casa, Joeh me acompanhava. Chegamos à varanda com lágrimas nos olhos e soluçando descontroladamente. A casa não era melhor por dentro do que por fora: grande parte do telhado já se fora, assim como a parede sul; a porta de entrada ameaçava cair a qualquer instante e na cozinha, guinchos de animais silvestres misturavam-se ao som de cacos de potes. O único cômodo em melhor estado parecia ser o terceiro, de um conjunto de quatro quartos que ligavam-se ao corredor.

Nele encontramos a velha senhora, deitada na cama, de olhos fechados, e um velho cavaleiro em seus trajes nobres ajoelhado ao seu lado. Lágrimas corriam de seus olhos e manchavam o lençol simples que a cobria. Um cheiro de rosas preenchia todo o lugar. Uma luz tênue entrava através da janela empoeirada e mergulhava toda a cena num dourado divino. Eu e Joeh estávamos chorando copiosamente, as golas de nossas camisas encharcadas em lágrimas, suor e sujeira. O velho olhou para nós. Algum tempo se passou antes que eu conseguisse falar algo. Quando finalmente balbuciei algumas palavras, engasguei-me com minhas próprias lágrimas. Perguntei quem era ela, e o velho, com um estranho sorriso amargurado disse-me que responderia com uma estória, e essa, foi a estória que ele contou:

“Há muito tempo atrás, quando você, meu jovem, ainda nem tinha planos para nascer, quando Túlio II reinava sobre Andifilus e todo o reino, havia, na capital uma moça muito bela. Vinda das terras do norte, ela encantava a todos com sua beleza exótica e não foram poucos os pedidos de casamento e dotes maravilhosos que lhe foram oferecidos, mas ela acreditava na paixão, no amor, e decidira que só desposaria o homem que falasse com seu coração.

Para alguns, sua beleza e seu charme eram o único motivo da atração que exercia sobre os homens, para outros era sua simpatia, alguns falavam até em bruxaria, mas poucos sabiam a verdade. A verdade, era que a felicidade contagiante era o principal fator de atração, daquela senhorita. A causa de tal aura de felicidade era sua origem estranha.

Sabe-se que nos reinos do norte, quando se batiza alguém, este recebe uma Runa entalhada em seu seio, que significa seu nome naquela estranha língua deles. Ela fora chamada de Felicidade, pois seus pais, já muito velhos, não mais tinham esperanças de ter filhos, e seu nascimento os deixou muito felizes. Assim, ao escolher este nome, eles também pediram aos seus estranhos deuses que, do modo como ela os trouxera felicidade, ela trouxesse o mesmo àqueles com quem cruzasse em sua vida. E assim se deu!

Mas, como eu estava contando, muitos a desejavam, mas a ninguém ela correspondia. Nenhum deles, como ela dizia, falava com seu coração. No entanto, num Dia de Feira como este, um estrangeiro chegou à Fiandor, capital do reino de Túlio II, Landrill era seu nome e sua voz era bela como a do rouxinol. Era menestrel, mas dizia querer ser cavaleiro e lutar ao lado do Rei. Fora a Fiandor para se alistar e animar, com seus harmoniosos acordes, as fileiras do poderoso exército real. Era de uma confiança invejável e beleza comparável à de Judes, deus das matas; e com sua voz, doce e calma, finalmente atingiu, melodiosamente, o coração de Felicidade.

Dançaram bastante durante a feira e antes da noite cair seus corações já pertenciam um ao outro. Isso atraiu a inveja e os olhares maldosos de muitos dos pretendentes da moça que logo odiaram o alegre rapaz. Um deles, um rico mercador de tecidos do reino Sergali, decidiu tomar a iniciativa e preparou um plano sujo para separar os dois.

Contratou um mensageiro e forjou uma mensagem para Landrill, a mensagem exigia sua presença imediata nos festejos da filha do Barão Bergkamenn, um poderoso senhor das terras natais do bardo. Este, sem escolha, teria de retornar tão logo recebesse a mensagem. O que mais poderia fazer então, além de aproveitar a presença do mensageiro e enviar uma mensagem de despedida a Felicidade? E assim o fez, em versos maravilhosos, dignos de serem recitados por anjos para o deleite de Arkohl, o grande e único. Mas esta mensagem nunca chegou. Em seu lugar, foi um bilhete, forjado pela pestilenta mão do mercador Sergaliano, convidando a moça para um encontro no lago Midenus, próximo à cidade, naquela noite.

Felicidade estava exultante, e Landrill, embora de coração partido, nada vislumbrava da trama negra que se armara para enredá-lo. A noite chegou, e a donzela, sem demora, foi ao local marcado. O lago estava deserto. Nem mesmo os pequeninos insetos, seus freqüentadores habituais, zumbiam por lá, como que já soubessem da tragédia que se aproximava. A noite foi longa, mas Felicidade não abandonou seu posto, nunca deixando de acreditar no doce Landrill.

Esperou até o raiar do sol, então, a beleza daquele momento partiu seu coração, como poderia o seu amado tê-la abandonado de tal maneira? Ela não encontrava resposta. E quando o primeiro raio de sol refletiu no lago e a ofuscou, ela gritou a dor de seu coração partido. Podia-se ouvir o som dos cacos se quebrando e no seu seio, a runa, que um dia significara felicidade, rachava-se e, com mais este traço do destino, passava a significar tristeza.

Ela chorou, talvez pela primeira vez em sua vida. Árvores e flores choraram orvalho até secar, os rouxinóis piavam tristemente, a grama queimou e espinheiros tomaram seu lugar. Sua bênção, era agora sua sina: tristeza era o que levaria, aonde fosse, a quem encontrasse. Jamais conheceria a felicidade novamente, não antes que a ferida profunda em seu peito cicatrizasse e a runa, completa novamente, sorrisse feliz.

Landrill  voltou em três semanas, mas não a encontrou, ela fugira da cidade, para nunca mais retornar. Alguns diziam, tinha ido para o oeste, outros para o sul. Mas no fundo ninguém sabia o seu destino ou qual a causa daquilo tudo. O resto, vocês já sabem. Ela veio para as montanhas, próximas a sua cidade, para morrer em paz, como a mais triste entre os mortais. E eu, depois de andar este imenso mundo, de descobrir toda a verdade, a encontrei tarde demais, e a tristeza que ela deixou neste lugar será minha até que minha partida se anuncie.”

Ao acabar,  Landrill, que não era outro o velho, olhou-nos no fundo dos olhos, mas, apesar de tudo, nenhum de nós chorava agora. O cheiro de rosas estava mais intenso, e a senhora, agora recostada no travesseiro, sorria, a runa novamente completa em seu seio. Ao redor a casa se metamorfoseava, enchendo-se de cores, flores brotavam lá fora e no céu os tais fogos de artifício completavam esta cena, que, em todo seu esplendor só evocava um sentimento: Felicidade.

Felicidade fechou os olhos para nunca mais abrir, mas morreu feliz, como deveria ter vivido. Landrill agora vive nas montanhas, e me recebe sempre que o visito em sua bela cabana. Quem sabe um dia, quando ele morrer, eu possa ver em seus olhos o mesmo que vi nos de sua amada: a verdadeira felicidade. A felicidade por poder reencontrá-la e não mais poder perdê-la nos etéreos reinos de Arkhol.

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